O Feitiço
A secularização das relações familiares
O dia de hoje foi desafiante. Uma pseudogripe, um exame da universidade, questões do trabalho para resolver, apesar do dia ser de folga laboral, uma aula online, uns telefonemas, mensagens respondidas…tudo isto tornou o dia grande, extenuante. Em contraponto resolvi ver um filme com a filhota, antes do jantar. Ela escolheu "O Feitiço" 1e lá embarcamos no sofá, sob uma manta, duas ou três almofadas e aqui vamos nós nesta viagem rumo à animação infantojuvenil. Um aconchego aqui, um colinho doce ali, umas festinhas na cara e na cabeça, como ela gosta, todo um cenário de mel de inverno. O filme desenrola-se como qualquer filme desta categoria. Cheio de cor, música, personagens inusitadas, suspense q.b e muita animação. Estava simplesmente aproveitar aquele momento ternurento com aquela que é a melhor parte de mim.
Já a mais de meio do filme comecei a questionar a temática deste. Uma adolescente de quinze anos que começa assumir responsabilidades de adulta, a ver a sua juventude a passar-lhe ao lado e a defrontar-se com o desmoronamento da vida familiar que ela conhecia e que era a raiz da sua identidade. Foi aqui que o meu momento de mel se cristalizou. A filhota sem entender o que se passava perguntou porque chorava assim: o filme nem é assim tão triste, dizia ela. Pois não filha, tu nunca foste a "ilha"2 de ninguém. Deixei o sofá e passei para dentro do ecrã. Senti cada pedacinho que ali foi retratado como sal em ferida escondida sob uma cicatriz borrada com corretor de olheiras. A Ellian era eu. Mas ao contrário dela, eu fiquei no remoinho negro. Não houve reposição da ordem.
Neste campo de batalha, fui fragmento, dano colateral, arma de arremesso… aprendi tudo aquilo que não quero ser… aquelas pessoas.
Quero acreditar que os adultos de hoje são mais adultos, mais conscientes, apesar de saber que nem todos os ADN´s estão preparados para os nível de sensibilidade e consciência que são necessários para atuar perante o caos.
Isto não é uma tragédia. É somente uma história, igual a tantas outras com a particularidade de ser a minha.
Normalizar o fim das relações conjugais garantindo a harmonia familiar é um processo de secularização necessário e urgente. É o primeiro quebra feitiço.
https://www.netflix.com/pt/title/81745658
conceito de "ilha” como analogia utilizada pelos personagens do filme.

